Uma reflexão da escritora Marlene Theodoro que merece ser apreciada




O pão nosso de cada dia
                            
O símbolo do pão é uma das ideias mais bonitas (e uma das evocações mais fortes) que uma oração poderia trazer, pois desde tempos imemoriais a luta pela sobrevivência acompanhou os caminhos do homem aqui na terra.

O pão que o alimentava era conseguido a duras penas, com muito trabalho e muitas lutas. Por isso, só era compartilhado com quem se pudesse perceber o mesmo propósito de vida, a mesma garra, a mesma solidariedade - um companheiro (do latim cum panis), ou seja, aquele com quem se  come  o pão.

 Mesmo nos dias de hoje, tempos de fast food e slow food, industrializados e orgânicos, calóricos e light entre outros, esse mesmo valor persiste entre nós, pois ter um ambiente harmonioso é condição fundamental quando comemos; mais do que o alimento, a emoção que acontece e se desenvolve entre as pessoas é fator decisivo para uma boa refeição.

“O pão nosso de cada dia nos dai hoje” é uma das sete súplicas contidas na oração do Pai Nosso, uma das preces mais singelas que o espírito humano já produziu.  Aprendi suas palavras junto com minha mãe, à hora de dormir, em momentos de solene reverência ao Nosso Deus. Suas palavras sempre me acompanharam de forma indelével e silenciosa; não sabia ao certo o que significavam, mas pressentia sua verdade simples e profunda. 
 Minha vida mudava, eu mudei. A verdade da vida, entretanto, é que somos exatamente quem precisamos ser. Podemos entender o que injustiça e desamor representam, o que o egoísmo e a indiferença causam, mas, enquanto não experimentamos o conhecimento do real significado que elas podem ter, não temos condições de avaliar o que significam de verdade.

Foi assim que descobri o valor da paz, da possibilidade do perdão, da generosidade de uma mão que se estende para nos ajudar, do amor que cultivamos, da bênção de colhermos os frutos do trabalho que realizamos, de termos sempre “o pão nosso de cada dia”.

E aqui se revela a belíssima riqueza da imagem: pão não apenas para a nossa sobrevivência física, mas pão também como alimento para nossa alma e nosso espírito, pelos conhecimentos que adquirimos, pela sensibilidade que devotamos à música e às artes, pela beleza que descobrimos em nossos dias, pelo amor que deixamos entrar em nossos corações e dividimos com outros, pela centelha de luz que não conseguimos explicar ou definir e que, no entanto, nos ilumina e nos guia em direção à dignidade que todos merecemos e para a qual vivemos.

 A esse respeito vale a pena mencionar um fato que uma amiga me contou muito emocionada.  Seus pais, que agora moram no Brasil há mais de 50 anos, vieram de um pobre  pueblo  na Espanha. Eram campesinos simples que enfrentavam sérias dificuldades com sua porção de terra, que mal produzia para alimentar uma família grande e faminta como a sua. A colheita não era grande, e muito pouco sobrava para os tempos de inverno, época em que nada era plantado ou colhido; havia um ou outro animal, mas não podiam matá-lo porque era toda a riqueza de que dispunham.

Tomaram, então, uma decisão crucial. Começaram a semear as beiradas das estradas que ligavam o seu pueblo a outros pueblos com as sementes que guardariam para passar o inverno. Era arriscado, mas elas germinaram, floresceram e deram frutos. Ninguém mexia nos galhos dourados do trigo, nem reclamava da macieira que invadia um pouco a passagem já estreita da estrada. Afinal, a luta de uns podia ser, no futuro, a luta de todos.

A vida melhorou, ficou mais fácil. Seus pais, entretanto, queriam mais. O movimento migratório, cada vez maior em direção ao Novo Mundo, a América Latina, fez com que eles novamente se arriscassem em busca de algo melhor. Chegaram ao Brasil e trabalharam – ele como empregado menor em uma grande indústria, ela como empregada doméstica na casa dos donos da empresa.

Sua honestidade, sua retidão de caráter e, principalmente, sua vontade de vencer fizeram com que percebessem a possibilidade de desenvolver seu próprio negócio. O patrão os estimulava a prosseguir e, mais uma vez, eles arriscaram. Hoje sua empresa conta com centenas de funcionários e seus negócios alcançam níveis considerados invejáveis.

Acredito piamente que a energia e a devoção que depositamos em nosso trabalho podem nos trazer plenitude e realização.  Podemos ser descritos (como tantas vezes já fomos) de diversas formas. Mas não somos, em essência, seres que trabalham e que podem construir seu destino? 

 *Marlene Theodoro é doutora em Artes Visuais pela UNICAMP,  responsável pelos cursos de Técnicas de Apresentação em Inglês do Instituto Reinaldo Polito e professora nos cursos de pós-graduação da ECA-USP. Autora do livro “A era do Eu S.A”, publicado pela Editora Saraiva.

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